quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Deus e o Diabo - Ferraria


Visual da parede


Mucho granito arriba

Vale estreito do riacho
Venho aqui compartilhar uma ótima aventura que tive com um camarada muito do empolgado que era o Rodriguera, o gurizinho tava mandando bem mesmo, um certo fim de semana quando escalámos no Setor 3 de São Luís do Purunã e surgiu a idéia de tentarmos a via Deus e o Diabo no Ferraria, uma via imponente numa bela montanha, 500 metros de granito temperado com esticos e móveis, via "da moda" (rs), pois havia sido aberta recentemente e povoava as ambições dos paredeiros de plantão, fomos lá averiguar, conseguimos umas infos com os conquistadores, e fomos fazer um reconhecimento, isto é, tentar achar o início da via, que o acesso se dá por um riacho montanha acima, dá-lhe trepa-blocos no rio, e de repente foi ficando bem complicado e digamos arriscado, quando diagonamos pra direita por uns trepa-matos esquisitos pra tentar visualizar a parede, pra nossa surpresa vimos na mesma altura em que estávamos, mas mais pra dentro da parede, uma parada dupla, foi aí então que concluímos estar vendo a P1 da via e "de cima" achamos a base (rs), descemos pro rio e enfim estávamos na base, beleza, havíamos concluído esta etapa.

Linha da via - fendas
Vale estreito do riacho
Rodriguera no início da via
Numa outra e bem próxima oportunidade retornamos lá com o intuito de entrar na via, saimos após o almoço do Annhangava e fomos de motoca até o sítio do PP, dá-lhe pernada, quando saímos da Trilha da Conceição e entra na trilha que dá acesso à parede, já começou a anoitecer, e em determinado momento, no crepúsculo, ainda não portava a lanterna, quando íamos por encosta acima, de repente naquele lusco-fusco, a alguns metros de mim um animal se assusta e se levanta mais que rapidamente, e se ele se assustou, imagina eu (rs), nos fitamos por um instante e ele bateu em retirada, parecia ser um felino por sua agilidade, foi um momento mágico para mim, de marcar a memória mesmo, bem... continuando, após os trepa-blocos do rio à noite, enfim chegamos à base da via, e resolvemos bivacar para logo cedo, entrarmos na via.

Rodriguera na P3
Amanheceu um belo dia de inverno e lá pelas sete e pouco entramos na via, as quatro primeira cordadas eram de aderência e fluímos rapidamente, mas a via reservava suas surpresas, e na quinta cordada, uma espécie de fenda de corpo protegida em móvel, o Rodriguera, não muito habituado a esta técnica, apesar de termos repetido a Fenda Principal no Marumbi, levou uma queda fator 2, sorte que na P4, e pra baixo dela, havia vegetação que deu uma aliviada no couro do guri (rs), valentemente o Rodriguera, apesar da queda, retornou pro lance e com bastante esforço guiou a cordada.

Radiador fervendo na P5
O menino tá com sede!
Entrei na sexta corda, aquela do pêndulo, que fiz já com uma certa desconfiança, e entrei escalando na canela de mato frágil que se segue, passando um venenos, e também com bastante esforço cheguei na parada, o Rodriguera deu adrenada no pêndulo de segundo, e eu de cima vendo aquilo me fazia lembrar o lance do filme K2 em que parceiro do "Taylor" pendulava para conectar a sequência da via.
Taylor na P6
Chegando na P6 o Rodriguera logo entrou na sétima e travou antes do então crux em livre da via, ia e voltava e o tempo passava, eu naquele momento não estava muito afim de guiar pois na cordada anterior tinha "fritado" os nervos, foi quando ele voltou pra parada e resolvemos parar de correria, e darmos um tempo para nos alimentar, dá-lhe pão com mel! A montanha nos ensinava sua lição, da humildade e respeito à vossa majestade, realmente a via era um pouco mais exigente do que supomos de início e demorávamos demasiado em algumas cordadas.

Então crux livre da via
Saindo do pêndulo
 Após uma boa recuperada de energias e ânimo, lá foi o Rodriguera guiar a sétima e então parecendo outro escalador mandou os lances com maestria, limpei a cordada e já percebi que o estilo de conquista entre a primeira e a segunda metade da via diferia um pouco, digamos que "o buraco era mais embaixo". Entrei na oitava cordada e já logo no início veio um barriga difícil de mandar em livre, então entrei em cliff e estribos, passei o lance e a sequência vinha alguns esticos maiores em lances relativamente fáceis, encontrei uma fita num grampo que guardo até hoje, e segui, logo veio uma passada delicada pra entrar na canela que dá acesso ao platô da P8, confiei na sapata e logo chegava na P8, quando o Rodriguera chegou, a noite praticamente já se fazia presente, eram por volta de 17:40hs, imaginávamos fazer a via em um dia, mas isto não foi possível pelas nossas restrições de escaladores naquele momento para aquele tipo de via, subíamos lentos, também devido às nossas mochilas (40 litros) com tralhas de bivaque pra não passar tanto perrengue de frio na parede, nosso subconsciente já havia nos pregado a peça de um pernoite na parede (rs).
Rodriguera na 7ª cordada

8ª cordada - primeiro trecho de cliff
8ª cordada - primeiro trecho de cliff
P8!
Amanhecer
Bivaque na P8
Ventou bastante à noite e apesar dos equipos, eu passava um frio danado, estava num mini platô mais abaixo e exposto ao vento, meu saco de bivaque não tava segurando a onda e eu tiritava de frio, mas graças a uma grande lona preta que Rodriguera levou consegui me safar um pouco do frio.
Bivaque na P8
Taylor na chaminé da 9ª cordada
Energia renovada
Saída da 9ª
Taylor na 9ª cordada
Amanhece o dia e logo entro na nona cordada, que de uma escalada fácil logo vira uma chaminé que por estar molhada virou um baile de estribos, socava a maior peça no fundo e quando subia no estribo, o corpo insistia em adentar a chaminé, e fui indo meio que em livre e artifo cheguei na P9, já não estava com aquele ânimo todo (rs), quando o Rodriguera chegou na parada, mais indecisão, somente eu dominava (mal e porcamente rs) a técnica de artificial de cliff e mais um erro, mas que para as nossas restrições foi um acerto, dividimos a décima cordada, o Rodriguera que estava melhor no livre que eu fez a fenda em arco inicial chegando na chapa desceu para eu então entrar guiando nos cliffs, lógico que tudo isso também foi consumindo tempo, e lá fui eu, e aos poucos ia galgando furo a furo, e imaginem até então só havia treinado com cliff/estribo em agarra de pedreira e em tope roupe! Que roubada! Putz cada furo acima era mais enervante, pois a chapa ia ficando cada vez mais abaixo e na hora de tirar o estribo de baixo para passar pra cima, quando se fica em somente uma unha digamos, aquilo era um A1 mas pra mim parecia um A4, era de fritar os miolos mesmo, ali pensei em abandonar, mas olhava pra baixo e o Rodriguera não se mostrava nem um pouco animado em experimentar os cliffs e eu sabia disso, sabia que aquele trecho era comigo mesmo, olhei montanha abaixo pensando na desistência, mas só de imaginar em desistir tão perto, pois "só" faltava terminar aquela sequência de cliffs e mais outra sequência pior pra chegar na P10 e daí então uma cordadinha de quarto grau pra acabar a via e trepa-mato pra ir ao cume e descer caminhando, pensei no empenho de rapelar dali e descer os trepa-blocos do rio, que falei pra mim mesmo, "Vamos mais um gole pra cima pra ver no que dá!", o tempo então fechou numa neblina espessa e gelada, e fui me arrastando pelos estribos e cliffs montanha acima, na hora de mudar de furo acho que não mexia nem a sobrancelha (rs), engraçado que num lance você ficava até que de boa numa aderência e voltava cliff, terminado o artificial, eu novamente escalava em livre e perto do fim da cordada, a neblina fechava tudo, e olhando o croqui que possuía tive a impressão da via diagonar pra direita numa canaleta pra chegar na parada, e lá fui eu, mas as coisas foram se complicando e se continuasse iria entrar numas barrigas negativas escorridas de água, era queda na certa e possivelmente me machucaria, desescalei então para a última chapa e lá fiquei tentando encontrar a linha, acima tinha uma canaleta de mato estranha e eu não cria que a via fosse por ali, fiquei tentando achar algum indício em meio àquela neblina toda, foi quando ventou um pouco mais forte e consegui ver no final desta canaleta acima a parada dupla, foi só alegria, me concentrei mais um pouco e logo estava lá, enfim na P10.


Rodriguera no início da 10ª cordada
Taylor na 10ª cordada

Taylor no cliffs da 10ª cordada
"Ombro"
Foi outro ótimo momento da escalada, havia me superado, estava acima do ombro do Ferraria e neste momento o tempo abriu e pude ver o magnífico Ibitirati, consegui ligar pra casa e avisar que estava tudo correndo bem e que logo estaríamos de volta, o Rodriguera veio prussicando e enquanto isso eu me deliciava com aquele visual todo e a sensação de tranquilidade de haver transposto aquela cordada.

Vale estreito do riacho
Tão logo o Rodriguera chegou, já foi guiando a cordada derradeira, e logo nos reunimos na P11 e final da via, a tarde já ia avançada e dá-lhe escalaminhada acima pra tentar a achar a trilha pro cume do Ferraria, após uns 20/30 minutos a encontramos, largamos as mochilas e corremos trilha acima e logo estávamos a assinar o livro de cume. O sol se punha a estas alturas e foi legal estar lá e poder exprimir aquelas sensações nas linhas daquele livro, gostaria de um dia poder reler aquelas palavras...

Los dos ticos malucos
Começamos então a descida, logo apanhamos as mochilas e descíamos "ripando" montanha abaixo, em alguns trechos as pernas fraquejavam, trechos de trilha e de rio pra descer, e entre um tropeço e outro, já de noite chegamos na trilha da Conceição, mais uma boa pernada e chegamos na moto, e mais um pouco de aventura na BR-116 pra chegar em Curitiba, e lá chegando paramos numa pizzaria perto da casa do Rodriguera e devoramos uma pizza gigante e saborosa!
"La Poderosa"















Lembro desta empreitada com bastante saudosismo, valeu Rodriguera pela parceria esteja onde estiver estimado amigo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Sempre em movimento...

Eta viazinha pra manter a forma do caboclo!
É isso mesmo, a via Pichorra de aproximadamente 35 metros, que se localiza entre Rio Negro e Campo do Tenente, sempre exigente. Hoje estive por lá para manter a forma e dar um pega no psico, e ela me manteve ativo, nestes tempos difíceis de muitas responsabilidades e poucas oportunidades, e menos ainda com parceiros do climb, a minha noiva deu uma força, pois é, segurou bem minhas quedas rss, quando estive pela última vez com ela por lá, eu havia encadenado a via, desta vez levei um espanco, a via é longa, mas pingadinho cheguei no final, muito legal mesmo! Precisava levar uns espanco e ela educa mesmo! Proteções mais espaçadas na segunda metade, Às vezes você passa um crux e ainda precisa pagar mais um ou dois lances meio delicados pra costurar, se for sacando é emoção garantida, e como gosto de me educar nela, entro sacando, cheguei a quase praguejar o equipador rss, mas daí você pára, respira, se acalma e toca pra riba, às vezes dá certo e às vezes você voa, assim é a "Pichorra". Mas não é o bicho não galera, é só desencanar nos lances mais longos, que nem são tão longos assim (Salinas é bem pior), e escalar, educar a cabeça pra desbloquear e subir, minha muié tá legal na seg, logo logo eu volto lá pra mais um round!
Uma coisa que eu aprendi nestes anoa de climb, nunca páre, seja boulder, via esportiva, via móvel, grandes paredes, alpina, etc, se tiver oportunidade escale, e se não tiver... crie esta oportunidade, sempre tem uma parede pertinho de casa, é só procurar, crie uns "monstrinhos" (com todo o carinho para com a via) e a visite frequentemente, com sorte surgirão ótimas escaladas por aí afora e você vai estar afiado, pois sorte pra mim depende de duas coisas, oportunidade e preparo, você tem que estar preparado quando surgirem as oportunidades...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"Porta para o Infinito" liberada!


No finalzinho de minhas férias consegui participar de uma aventura muito legal, a liberação da via "Porta para o Infinito" no Pico Agudo em Sapopema-PR, aberta em 2011 pelo Alessandro Haiduke e Élcio Muliki, era pra eu ter estado na abertura com os parceiros no entanto por questões de trabalho não pude participar da empreitada, e sinceramente fiquei com aquela sensação de "putz deveria ter ido mesmo assim"... mas responsabilidades são responsabilidades.
Mais de um ano depois, de férias, estava com gana de ir lá tentar a via, cogitei até com o Alessandro, quando estivemos por Piraí do Sul abrindo umas vias, mas no entanto ainda não me sentia suficientemente preparado, já que tenho escalado pouco em paredes maiores e difíceis.
Na última semana de minhas férias comecei a especular com os dois conquistadores sobre a via, não sei nem direito o porquê, já que não achava parceiros para tal, mas mesmo assim perguntava (rs), até que recebi uma mensagem do Élcio no celular, me perguntando se eu estava afim de repetir a "porta" e respondi que sim, então marcamos de ir pra lá, no finalzinho mesmo de minhas férias, e na sequência ele estendeu o convite ao Val (Valdecir Machado), e achei bem legal, pois isso aumentava as chances de sucesso na tentativa de liberar a via do artifo e pêndulo, além de haver mais "mão-de-obra" (rs) pra limpar algumas fendas da via bem como derrubar o bloco solto da primeira cordada.
Bem lá fomos nós, saí de Rio Negro-PR, cidade em que resido, para pegar o Élcio e o Val em Curitiba, e após vários contratempos com o trânsito de sexta-feira à noite em Curitiba, chegamos em Sapopema, por volta de meia-noite, e dá-lhe seguir pelas estradas de chão até próximo ao Agudo, e para nossa grata surpresa, a estrada até lá está ótima, isso rendeu ânimo para subirmos para bivacar no cume do Agudo, fomos dormir lá pelas duas e meia da madruga.
Acordamos logo, após uma curta noite de sono (resto de madruga), as seis da manhã aproximadamente, e depois de um breve café começamos a rapelar a própria linha da via, o Élcio ia na frente, pois já conhecia a via, e resolveu reforçar com uma chapa a P3, a P2 e a P1, pois na conquista já haviam passado por um "susto" na P2, ficou bem legal o "upgrade" já que melhorou a segurança e permitiu rapelar direto até a base da via, derrubamos, com um pouco de trabalho o grande bloco "solto" da primeira cordada.
E enfim começamos a escalar, o Élcio guiou a primeira que ficou um pouco mais difícil tecnicamente pela ausência do bloco, porém ficando bem mais segura e que o Élcio encadenou.
O Val encarou a segunda e mais difícil cordada da via, que possuia uma passagem de de artificial A1, guiando-a maestralmente em livre com um encadenamento, sugirou 8a.
Após ter limpado e achado o traçado para eliminar o pêndulo, o Élcio guiou a terceira cordada também encadenando-a e então me encarreguei de guiar a quarta e última cordada da via com a responsa de não cair para manter o encadenamento da via toda, uma cordada também muito bonita e como todas as outras também exigente, uma sequência de chaminés, fendas de meio corpo com um pouco a mais de exposição, dei graças a hora que costurei a chapa perto do final da cordada, ufa! e prossegui até a parada, que está logo abaixo do caderno de cume, cumpri minha parte dos encadenamentos também, aí foi só alegria, muito satisfatório ter realizado junto com os camaradas a primeira repetição da via, já que não pude estar durante a conquista, que diga-se de passagem esta via foi presente ao montanhismo paranaense, uma ótima via para ser experimentada, se estiver bem "aclimatado" com grau um pouco mais "puxado" em proteções móveis.
De quebra, ainda fomos conhecer as vias abertas pelo Alessandro e Andrey na agulha vizinha, a Agulha Reinhard Maack, bivacamos por lá, e no outro dia expermentamos a excelente via "Couro de Cobra" 7a de fenda de uns 25 metros, muito estética a linha, num trecho parece que a fenda foi cortada com "Makita" (rs), entalamentos e proteções bombas, muito boa mesmo. E pra fechar abrimos a fenda de "entubamento" ao lado direito, em que o Val guiou e que também experimentamos, a via chama-se "Bem do seu Tipinho" algo em torno de 6ºSup, bem legal, nos reunimos então no cume desta agulha e assinamos o livro de registros com um visual alucinante das paredes ao entorno e do rio Tibagi ao fundo.
Deixo aqui meus parabéns aos conquistadores das vias citadas, agradeço a parceria do Val e Élcio na repetição das vias e ainda um agradecimento extra ao Élcio por ter nos apresentado pessoalmente a excelente linha que é a "Porta para o Infinito".
 Val entrando no crux da via

 Élcio iniciando a primeira cordada

Élcio na primeira cordada

 Val e Taylor na primeira cordada

 P2

 Val

 Élcio

 Taylor

 Sombra do Pico Agudo nas nuvens do Rio Tibagi

 Rio Tibagi sob nuvens

 Val iniciando a segunda cordada

Élcio na terceira cordada

 Élcio na terceira cordada

Taylor na 4ª cordada

Taylor na 4ª cordada
 
Couro de Cobra


 Bem do seu Tipinho

 Pico Agudo

 Rio Tibagi visto da "porta"

Impressionante parede do Pico Agudo com a linha da "Porta para o Infinito"